segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Embuste dos Trecos

Peça Teatral: Trecos e Truques
Realização: Cia. das Artes
Roteiro: Wilma de Souza
Direção: Jair Aguiar
Local: Teatro Commune
Apresentação: 15/08/2010


A peça infantil trata de uma pulga de estimação que desapareceu e convida o público a participar de sua busca.

Não era possível identificar de que as personagens estavam caracterizadas, com exceção de algumas crianças e da pulga. O texto era confuso e com pretensões musicais dissonantes tanto da realidade da peça, quanto da realidade infantil. As cenas, sequências de cantigas de roda e folclóricas com intervenções das personagens procurando a pulga, minguavam o desempenho dos atores, e eram como fotografias deslocadas de seus universos.

Enfim, a Companhia que me perdoe, mais quaisquer aspirações artísticas eram truques em trecos.

A Crítica da Desordem

Peça Teatral: Horden & Pogre$$o
Realização: ETA - Estúdio de Treinamento Artístico
Roteiro: Criação Coletiva
Direção: Rodney D’Annibale
Local: Teatro Brigadeiro
Apresentação: 13/09/2010


A apresentação contou com uma série de esquetes de cunho político-social e foi a conclusão do primeiro módulo de curso de teatro dos alunos do ETA – Estúdio de Treinamento Artístico.

As caracterizações das personagens eram adequadas e as atuações, embora singelas, estavam dentro da realidade de alunos lidando com diversas emoções simultaneamente. Os temas abordados eram bastante intensos e de caráter psicológico profundo, mas tratados com a objetividade simplista contemporânea, que reprime a alma e não permite que sejamos penetrados emocionalmente.

Um senão foi a falta de contextura entre as esquetes, que comprometeu a riqueza das idéias discutidas e a resolução dos conflitos propostos, contudo, o espetáculo não deixou de ser uma reflexão sobre as pílulas de felicidade comercializadas em nossa contraditória sociedade capitalista.

domingo, 26 de setembro de 2010

Arte? Sabe-se lá...

Poema: Sem solução
Autor: Humberto Ak’abal
Ano: -


Como não pude aprender algo
para chegar a ser alguém,
eu me dedico a bancar o escritor
para matar tempo.

Distração de loucos,
ofício de famintos,
disseram-me uma vez.

Outros correm,
invertem o dia
fazendo dinheiro.

Eu faço poesia.

Para que serve poesia?

Sabe-se lá
.”


Sucinto e intenso, o poema expõe nossas misérias e leva-nos a refletir sobre o lugar que a arte ocupa em nossa vida. Mas por que ser "alguém" aos moldes dos alheios à verdade, se "ninguém" que é perfeito em transcender a realidade concreta e vislumbrar o ideal? Sabe-se lá...

Ao contrário do que dizem os céticos, sem solução é a vida sem arte, estática, carente de ressignificação. A arte é útil, não utilitária, e serve, à utilidade da Beleza.

Aprendendo Entre os Sonhos da Realidade

Poema: Aprendiz
Autor: Humberto Ak’abal
Ano: -


“Nesses ímpetos
me surge a vontade de escrever;
não porque saiba, senão
porque fazendo-o e desfazendo-o
é como aprendo esse ofício e,
por fim,
algo vai ficando em mim.

As encostas,
os morros,
os precipícios,
os velhos povoados
têm segredos encantadores,
daí o meu desejo de levá-los a passear
em folhas de papel.

Esse belo ofício tenho de tratá-lo
como supertarefa, ainda que me doa,
porque não conto com o tempo de que
gostaria.
(Devo trabalhar em outra coisa para sobreviver.)

Meus versos têm a umidade da chuva,
ou as lágrimas do sereno, e não podem
ser senão assim, porque foram trazidos da montanha.”


Em um exercício de liberdade e experimentação criativa, o poema propõe um passeio por palavras que nos chamam de volta à comunhão com o todo e com natureza.

E em um delicioso descompromisso com a forma, reencontramos a experiência viva da arte que temos impressa na alma, mas em ressonância com as exigências da vida cotidiana.

Dialogando êxtase e concretude, deslumbre e experiência, fascina, ao mesmo tempo em que conscientiza, e lembra quanto nos falta alcançar e compreender, afinal somos todos aprendizes.

sábado, 25 de setembro de 2010

Instantes

Sentir cada momento único... eterno,
Intenso, profundo, amor, amor!
Viver eternamente o único,
Intenso, profundo, amor, amor!
O único...
O toque profundo da alma, profundo amor,
Sensação eterna, que transcende o tempo,
Sublime divindade, efêmera eternização.
Momento em que habito o inabitável
Que transcendo a realidade da compreensão
A conseqüência da admiração,
A casualidade do encontro
Verdade livre da representação da verdade
O espaço e o tempo do sentimento,
Metáfora de elevação é céu...
Pureza, cristal luminoso
A incompreensão da sensação, a plena realização
A agução da percepção
O sentimento já sentido de forma ampla, intensificada
A agução da percepção
O crescente desejo de sentir, experimentar profundamente
O sentimento já sentido de forma ampla, intensificada
Impregnar-se involuntariamente de sensações, de amor
Vibrar, indizível e indivisível, pleno
Emocionar-se... Divinização
Metáfora de elevação é céu, é seu!

O Encanto da Escuridão

Poema: Pássaro Sem Asas
Autor: Humberto Ak’abal
Ano: -


“Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encantamento
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória
recua, recua
até encontrar minha alma de menino.
(A escuridão
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.”


Singelo e intenso, o poema nos conduz, como em um encantamento onírico, a um mergulho em nossos próprios perfumes, em nossas mais profundas lembranças.

Suavemente, somos purificados e aconchegados pela escuridão, conscientes que sem ela, não há luz, não há reflexos, nem reflexões capazes de libertar as amarras que nos são impostas.

Somos transfigurados, e finalmente despertos, sustentamos, mesmo sem asas, nossos vôos rumo à liberdade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Contemporânea mente

Erro? Acerto.
Acerto das contas, que afinal de contas julga-se necessário
Desnecessita, conforma a forma, deforma o meio.

Simples? Banalizado.
Conceito esvaziado de significado
Mais vale a mais-valia, dissocia, degrada, comercializa.

Fruição? Consumo.
Tudo é arte... A Glória é arte
A arte de ofertar a quem procura e a quem desespera, ridiculariza.

Transformação? Estagnada.
A arte agonizante, corrompida
A arte dissociada da vida, condenada à morte.

Inspiração? Indústria.
A massificação maçante, contagiosa
A manifestação sufocada, limítrofe, prostituída.

Relação? Distanciamento.
A essência em tétrico detrimento
A superficialidade pútrida, leviana.

Verdade? Impingida.
O fim do princípio, o fim principiado
A ruína, a morte.

Experimentação? Atrofia.
A servidão ávida por poder poder
Experimentando os complexos amplexos da submissão.

Obra? Obrada.
O esvaziamento sem sentido, sem sentimento
A intensidade amortecida, frívola, rasa.

Identificação? Hipocrisia.
Alienação avaliada, pervertida e perversa
A arte é supérflua, é luxo, é lixo.

Solução? Ousadia.
Desordenar a desordem das ordens,
Criar libidinosamente, profusamente, incessantemente.

Opressão? Combalida.
Quando superada a angústia do desencanto
Quando destruída a destruição onírica.

Desengano? Luta.
Do benefício despido, a desmitificação do poder,
Metamorfoseado em poder transformar.

Anonimato? Harmonia.
Meu sucesso é viver pela ação lasciva da invenção
Pela construção da desconstrução uma e outra vez.

Desfecho? Arte.
Divina humana arte, que salva, transpõe, transcende
Que é parte e todo, nem nada, nem tudo, mas, sobretudo, é arte.